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Crônica do escritor Ângelo Monteiro sobre o livro Lagarta Richelieu

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A PALAVRA, revista da Academia Pernambucana de Letras Ano 4, publica uma crônica do escritor e crítico literário Ângelo Monteiro sobre o Livro Lagarta Richelieu da autora Lenice Queiroga, segue logo abaixo a publicação. Adm.

Lagarta Richelieu

EM SEU LIVRO, LENICE QUEIROGA REGISTRA MOMENTOS DO OFÍCIO SECULAR DA RENDA Ângelo Monteiro

Fazer rendas, como para quem escreve, demanda ao mesmo tempo desembaraço e firmeza; e a fotografia não poderia abandonar o rastro de ambas as linguagens.  E é assim que Lenice Queiroga, em Lagarta Richelieu (Recife: Gráfica Santa Marta, 2013), enquanto designer, artista plástica e arte-educadora, converte o registro fotográfico dessas rendas numa fascinante via de acesso ao universo criador. Pois tecer peças de rendas, de igual modo que fotografá-las, exige muito das mãos e dos olhos. As mãos que tecem também entretecem sonhos, e é de tais bordados que se traçam, não poucas vezes, os dourados rumos do futuro.

A união da textura de ordem árabe e da renda renascença, transplantada da Itália para a França, e por acaso aclimatada no nordeste do Brasil, nos torna herdeiros dessa estética artesanal não figurativa, acrescida de novos elementos, de acordo com o depoimento da autora de Lagarta Richelieu:  “Além de que houve toda uma recriação de pontos por essas rendeiras, construindo assim uma renascença com identidade têxtil brasileira-pernambucana de tradição familiar”. O Ofício de rendeira encontrou, dessa forma, em Lenice Queiroga a contrapartida da resposta fotográfica; e através dela, tenta recolher, no âmbito desse registro, os momentos ao seu ver mais significativos de um ofício e de uma arte seculares. A linguagem das rendas não deixa de ser um tanto distinta, porque formulada de pontos que – como as linhas para a escrita – nos levam a convergir para uma aliança em contínua progressão entre os mais vivos projetos e as exigências da realidade.

E é principalmente para o destino das mãos que as rendas, bem como as palavras, parecem apontar: das mãos que endereçam cada dia os pontos e as linhas de do seu bordado e da sua escrita aos nossos olhos para fazê-los sonhar. Por isso a tarefa por excelência das rendeiras, ao lado dos escritores e fotógrafos, é de juntar os olhos e as mãos para, no encontro entre a vida e a arte, agir como a Lagarta Richelieu: estender, em fidelidade ao próprio ponto, sua trama pelos meandros que envolvem as rendas e o mundo.

Ângelo Monteiro 
Escritor, ensaísta, crítico literário, professor universitário e membro da
Academia Pernambucana de Letras.

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